sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

AS NEVES DO CHACALTAYA



Subir até o topo do Chacaltaia, a 5.300 metros de altitude, para conhecer a mais alta pista de esqui do mundo, foi idéia do Serginho. Irriquieto, simpático e envolvente, foi o Sergio Ferreira de Mattos, numa das memoráveis festas que promovia no casarão da sua família em Petrópolis, que nos convenceu a desbravar a desconhecida América Latina em vez de, como os outros, partir para a Europa.
A pista de esqui estava fechada
desde o golpe militar, mas fomos informados que a estrada dava passagem, até para o ônibus. E, afinal, a recompensa seria o nosso primeiro contato com a neve. Resolvemos correr o risco. Foram cerca de 2.300 metros de subida por uma estrada de chão estreita, sem movimento, perigosíssima, cheia de curvas fechadas. Virar à direita não tinha problema, mas quando elas eram para a esquerda tínhamos que dar marcha-a- ré para vencê-las, pois uma pedra na estrada entre Oruro e La Paz havia danificado a suspensão do Grilo. A operação era dificultada porque o freio só brecava o pesado veículo depois de quatro ou cinco "bombeadas" no pedal. Enquanto um dirigia, outro – quase sempre eu – ficava na porta, com um calço, para saltar e colocar embaixo da roda dianteira, por garantia, caso o freio não funcionasse a tempo. Os outros ficavam apreciando a beleza do panorama ... e rezando para não despencar no precípio.
Nossos anjos da guarda estavam atentos naquela manhã de sol, e conseguimos chegar até o portão da estação de esqui abandonada. Estávamos no meio da neve, neve de verdade, farta, que cobria todo o topo da montanha. Saltamos do ônibus e, embriagados de felicidade, começamos a brincar, fazer bolas para jogar uns nos outros, rolar na superfície branca e fofa. Os teleféricos desativados não me impediram de sentir a sensação de esquiar, deslizando alguns metros montanha abaixo de pé mesmo, sobre a sola das botas.
Fazia muito frio, nossas mãos estavam congelando, mas ninguém ligava. No fim da tarde nos recolhemos para passar uma longa noite em que a temperatura certamente chegou abaixo de zero. Meu saco de dormir não aquecia o suficiente para pegar no sono, mesmo mantendo as roupas e o casaco. A maior vítima do frio foi um de nós - não me lembro quem, e se lembrasse não revelaria - que estava com diarréia e, volta e meia, tinha que sair e expor o traseiro ao vento gélido. Os gritos dele varavam a noite.
A descida, na manhã seguinte, foi tranqüila. O motor resistiu – havíamos retirado a água do radiador para que, ao congelar, ela não estourasse a tubulação - e na descida era bem mais fácil vencer as curvas da estrada. O Chacaltaia voltara a ser uma apenas mais uma montanha na linha do horizonte de La Paz.

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