domingo, 12 de dezembro de 2010

REDWOOD

" Xuxai, mister? Xuxai?” Custei a entender que aqueles meninos índios que me cercaram ao desembarcar em Otavalo estavam perguntando, em inglês com sotaque quíchua, se eu queria engraxar os sapatos. Um dos maiores centros de artesanato do país, Otavalo costuma receber milhares de turistas, especialmente aos sábados, dia de feira, quando os índios otavaleños descem das montanhas para exporem seus ponchos e outros produtos no mercado.

Agradeci (em espanhol) e tratamos de produrar um hotel para ficar aquela noite. Não podíamos perder tempo: era sábado, a cidade fervilhava e nosso dinheiro havia acabado. Deixamos as mochilas no hotel e fomos para a praça, onde repetimos o nosso ritual: comecei a cantar e em seguida já estávamos cercados. Entre os indígenas que ouviam em silêncio respeitoso os meus sambas e bossa novas havia um gringo de cerca de dois metros de altura, olhos azuis, cabelos compridos. Depois de algumas músicas, já havia público suficiente para uma pausa. Dedeco fez o pedido de colaborações, o pessoal foi jogando as suas notas e moedas e saindo. Só o gringo ficou alí, e se apresentou:

“ My name is Redwood – or madera roja, como quieran” – disse, dando uma risada. Nos apresentamos e ele contou que adora música brasileira, é californiano, mora em Otavalo há quase um ano, se apaixonou pelo Equador e pretende continuar vivendo no país enquanto puder. A empatia entre nós foi imediata, facilitada por nossa fluência em inglês. Ele nos convidou para ir até a casa onde morava, a poucas quadras dali, no primeiro andar de um prédio de dois pisos. A casa, de três quartos, tinha uma sala grande, com uma mesa de madeira maciça no centro. Em cima da mesa, um saco com fumo – "colombiano, de primeira", disse Redwood, e nos ofereceu um enorme baseado.

Moravam alí também os norteamericanos Jimmy, do Dakota do Norte, Skip, Steve e Phil, da Califórnia, e o colombiano Silvio, o Lobo. O mexicano Luís estava só de passagem. Era normal americanos, europeus, australianos e até brasileiros ficarem ali um ou mais dias, até seguirem viagem.

Embalados pela excelente maconha colombiana (punto rojo, uma das melhores do mundo, explicaram nossos anfitriões), em seguida estávamos numa conversa animadíssima. Cantei algumas músicas, enquanto Pedro foi para a parede forrada com papel que servia de mural onde os visitantes escreviam suas impressões e recados. Traduziu para o inglês, na hora, uma de suas poesias. Pedro é um grande poeta, e todos ficaram encantados com a poesia inscrita no mural.

O dia anoitecia e Redwood perguntou onde estávamos hospedados. Nos convidou para ficar com eles enquanto estivéssemos na cidade. Foi conosco até o hotel, pegamos as mochilas e batemos em retirada, sob os protestos do funcionário da portaria, que exigia o pagamento de uma diária.

Aquela casa em Otavalo foi o nosso lar pelos próximos meses.







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