sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

UMA VIAGEM NO TITICACA

O ônibus parecia flutuar, a 80 quilômetros por hora, sobre a estrada de cascalho que liga La Paz à fronteira com o Peru. Todos estávamos viajando de ácido (inclusive o motorista), e apreciávamos silenciosos a paisagem de encostas cultivadas das montanhas de um lado e as margens do Lago Titicaca do outro, quando solavancos e um forte cheiro de borracha queimada nos trouxeram de volta à realidade. Dois pneus traseiros haviam estourado e estavam destruídos(o motorista deveria ter parado logo que o primeiro estourou, mas estava, digamos, distraído, e só se deu conta que havia algo errado quando não conseguiu mais controlar o veículo.
Ninguém estava com disposição para trocar os pneus, nem havia socorro ali, no meio do campo. Saímos caminhando pela beira do lago até encontrarmos um índio Uro com sua canoa de totora (o junco que cresce nas margens). Os Uros aproveitam tudo da totora: os talos tenros são dados para os animais, e o resto da planta, depois de amassado e desidratado, é transformado em canoas, casas e até ilhas artificiais, onde boa parte da tribo vive. Há nove delas flutuando no lago. No rio Guaíba e na Lagoa dos Patos existem juncos semelhantes.
Nossa caixa estava baixa: apenas 25 pesos bolivianos (o equivalente a cinco dólares), mas este era exatamente o preço que o índio cobrava para um passeio no seu barco. Foi um belo passeio pelas águas escuras e calmas do Titicaca, num dia ensolarado e sem vento. Quando voltamos para a margem, o efeito do ácido havia passado, e trocamos os pneus para seguir viagem.
Daí para a frente, as coisas ficaram mais difíceis. Estávamos sem dinheiro e sem a banda para ganhar algum, e o ônibus, maltratado em milhares de quilômetros de estradas precárias, subindo e descendo montanhas, mandava sinais de que não resistiria muito mais. Rodávamos com apenas quatro rodas (o rodado traseiro de um caminhão é de duas rodas de cada lado) e a cada poucos quilômetros tínhamos que parar para consertar algo. Outra dificuldade era a falta de colaboração dos moradores daquela região, acostumados a explorar os gringos. Nosso papo de "estudiantes brasileños sin plata" não pegava naquela região de turismo. Sermos tirados de um atoleiro por um trator nos custou uma bicicleta. Uma velha gritava que queria 50 pesos por ter nos emprestado um pedaço de madeira usada como alavanca. Mandamos ela à merda e dissemos em coro alguns palavrões em português. Fomos em frente sem pagar, ouvindo suas maldições.

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