sábado, 11 de dezembro de 2010

NA BOLÉIA DE UM CAMINHÃO

Aquele sotaque me chamou a atenção. O caminhoneiro sentado na banqueta da lanchonete que pedira um bauru só podia ser gaúcho.

Já tínhamos almoçado, e depois dos meus agradecimentos e das despedidas fiquei perto da porta observando o cara. Estava acompanhado de um colega, e os dois se encaminharam para dois caminhões estacionados perto do posto. Olhei as placas: eram do Rio Grande do Sul. Sim, estavam indo para Porto Alegre. Sim, me dariam carona até lá. E me fizeram uma proposta de, digamos, trabalho. Em troca do transporte e da alimentação, eu teria que mantê-los acordados durante o trajeto. Estavam vindo de Recife, e teriam que chegar até a noite do dia seguinte para entregar a carga. Se sentiam muito cansados, dirigindo até 18 horas por dia, e temiam cochilar ao volante e se acidentar.

Foi uma maratona contra o sono. De três em três horas eu trocava de caminhão. E conversava sem parar, para manter a atenção dos motoristas. Ouvi as histórias deles – a saudade de casa, os problemas de relacionamento com a mulher e os filhos por causa das ausências prolongadas, as exigências cada vez maiores das empresas para a entrega das cargas em prazos curtos, mesmo que isto significasse jornadas de trabalho extenuantes.

Admirando a paisagem vista da boléia, contei a eles a história da minha vida - a infância em Três Passos, lá no noroeste do Rio Grande, perto da fronteira com a Argentina. As pescarias com amigos nos riachos das redondezas; os piqueniques de fins de semana com a família nos rios Turvo e Uruguai; a vinda para Porto Alegre, aos 13 anos de idade; a militância no POC, o Partido Operário Comunista, ainda na escola secundária; o vestibular de Jornalismo e, claro, as aventuras dos últimos meses.

No primeiro dia viajamos 12 horas, só parando para dormir à uma da manhã. Me acomodei embaixo da lona de um dos caminhões com o meu “space blanket”, o cobertor de astronauta. No dia seguinte, mais 11 horas de estrada e chegamos, sãos e salvos.

No portão da casa de meus pais, a música do Roberto Carlos que tanto me emocionara da rodoviária do Rio ainda ressoava nos meus ouvidos:

Debaixo dos caracóis dos teus cabelos,

uma história para contar, de um mundo tão distante...

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante

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