sábado, 11 de dezembro de 2010

SETE DIAS DE FESTA

24/6/72

Hoje, sábado, é dia de São João. Os índios festejam a semana inteira, até o dia de São Pedro e São Paulo. Não trabalham, só comem, bebem, cantam e dançam. Acordei cedinho, como sempre, e fui dar uma olhada no mercado, meio encolhido de frio, nariz vermelho, andando devagar. Me encanta caminhar entre o povo, cumprimentar todo mundo, olhar as pessoas e deixar que me olhem. Dar uma olhada nas transações – todo mundo compra, vende ou troca alguma coisa -, ficar olhando o espetáculo do vendedor de remédios com a cobra Catarina. Perto dali, um preto pretíssimo maneja o boneco Mário Moreno, que dança uma animada cúmbia, para pouco depois oferecer a sua pomada milagrosa, boa para qualquer dor, corte, até câncer. Por “un sucrito no más...”

Perdi todas as moedas do meu bolso na roleta instalada na rua. Claro que ela está viciada, mas não há para quem reclamar, pois a balança pública, colocada pela prefeitura no meio do mercado, só serve para tirar dúvidas quanto ao pesos dos produtos. Manuseada por um fiscal da prefeitura, há dezenas de anos a balança desmascara vendedores desonestos.

Alheios ao burburinho, dois índios tocam suas quenas (flautas feitas artesanalmente de bambu) em dueto. Quando eu chego perto eles páram de tocar e perguntam se eu quero comprar uma quena. Eles mesmos fabricam, e tocam para mostrar que são perfeitamente afinadas. Digo que não estou interessado em comprar, mas em ouví-los tocar. O dueto recomeça, e eu fico alí, saboreando as harmonias simples e delicadas da música andina, em que predominam os tons menores.

Caminho até a área montada para a festa, com dezenas de barracas onde, apesar de ser o início da manhã, já se come e se bebe. Os índios não têm o costume de fazer refeições matinais leves, como os espanhóis.Tomam sopas quentes, com batatas, milho, verduras e carne de porco para espantar o frio e ter energia para trabalhar. Vindos de toda a região, eles já são milhares a percorrer os espaços entre as barracas. Caminham com passos curtos, gingando o corpo. Grupos de mascarados cantam e dançam ao som de flautas e violões, visivelmente bêbados de cachaça ou de chicha, uma espécie de cerveja primitiva produzida artesanalmente pela fermentação do milho em tonéis.

Volto para casa e fico na janela vendo as crianças jogando sapata na rua. Uma mulher apanha do suposto marido, completamente bêbado, sem reclamar. Em seguida ele se deita no chão contra a parede de uma casa e cai no sono. A mulher senta ao lado dele, tira um rolo de fio de lã e começa a tecer. Vai esperar pacientemente até o porre do marido passar e levá-lo para casa. No dia seguinte provavelmente será ela a se emborrachar e ele a aguentar calado. Há um princípio que diz: “Quando índio chuma (se embebeda), índia no chuma. Quando índia chuma, índio no chuma”. As mulheres pegam no pesado, e têm o mesmo direito de beber até cair que os homens.


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